A viagem para uma palestra em Campo Grande reabriu lembranças de diferentes fases da vida de um escritor. O convite veio de Henrique Medeiros, presidente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, e de Theresa Hilcar, amiga com quem ele reencontrou uma cidade à qual está ligado desde os anos 1970/80.
Ao circular por Campo Grande ao lado de Henrique e Marcia, o escritor voltou também à Berlim onde morou nos anos 1980. Na época, havia se separado de Bia, sua primeira esposa, que se mudara para Mato Grosso com os filhos do casal, Daniel e André. Para falar com os meninos, juntava moedas e usava os orelhões da cidade alemã à noite. O fuso era de uma hora a menos, enquanto Campo Grande enfrentava o calor.
As conversas passavam pelas escolas, pelos jogos de futebol e pela casa na Rua da Paz. O endereço, que ficava em uma rua de terra, hoje está em um bairro de classe média alta e a antiga casa desapareceu. Entre as recordações, está o castigo aplicado aos alunos rebeldes: Daniel e André eram levados à biblioteca, onde permaneciam lendo.
A paisagem de Campo Grande, marcada pelo verde e por reservas preservadas do Cerrado, também apareceu como contraponto ao romance Não Verás País Nenhum, escrito quase na mesma época. A memória ainda levou ao período do Muro de Berlim, quando belvederes permitiam observar o “lado de lá” e os comunistas eram tratados como se estivessem em um zoológico. O escritor associa aquela cena às “loucuras da Guerra Fria” e aos acordos entre Kennedy e Kruchev.
Na semana passada, ele falou por duas horas para uma sala lotada, em um acordo entre a Academia Brasileira e a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Depois dos autógrafos, o grupo foi ao Território Ristorante, de Diogo Wendling, filho de Theresa. O restaurante abriu fora do horário para receber os convidados. Entre tortelli di ossobuco, entrecôte di angus alla griglia e risoto pantaneiro, a escolha ficou com o prato que reúne carne-seca, banana-da-terra, parmesão e pangrattato.






