FLORIANÓPOLIS — O documentário O Pai e o Pajé acompanha a investigação de Iawarete Kaiabi sobre a conversão do próprio pai, antigo pajé de sua comunidade, ao cristianismo. A mudança também envolveu o abandono de crenças anteriores e a transformação do líder indígena em um pastor evangélico.
“Este filme é minha busca”, afirma Kaiabi ao apresentar a obra. O ponto de partida é tentar compreender por que parte de seu povo escolhe o cristianismo e deixa de lado tradições que antes organizavam a vida coletiva.
O filme recorre a imagens da paisagem indígena e mostra comunidades ameaçadas pela exploração econômica, pelo desrespeito às demarcações e pelo garimpo. Também aborda a presença de igrejas evangélicas, que passam a disputar espaço com crenças e práticas tradicionais, classificando manifestações religiosas indígenas como pecaminosas.
A conversão do pajé aparece como uma experiência que ultrapassa a esfera individual. Ao trocar sua função dentro da comunidade por uma posição ligada à liderança evangélica, ele se torna parte de uma transformação mais ampla na relação do povo com sua cultura religiosa.
A questão já havia sido explorada pelo cineasta Luiz Bolognesi no documentário Eu, Pajé. Na obra, um sacerdote indígena perde sua posição tradicional e passa a trabalhar sob a autoridade de um pastor, que concentra a condução da fé da comunidade e estigmatiza suas práticas religiosas.
Os dois filmes se aproximam ao investigar os efeitos dessa mudança, mas não encerram o dilema. A pergunta permanece: por que alguém aceita abrir mão da própria autonomia? Para além dos povos indígenas, a questão também alcança qualquer pessoa diante das formas de submissão que escolhe — ou aceita — ao longo da vida.






